Pra não dizer que não falei das armas

O referendo ensina, apesar dos pesares. Uma boa lição: um grupo (qualquer grupo) não pode fazer de conta que detém a autoridade moral sobre determinado assunto, como segurança ou desarmamento. O socialismo sempre tentou sequestrar o sentimento do trabalhador mais simples e falhou clamorosamente. O liberalismo achou melhor apoderar-se do individualismo, medindo-o puramente na base do lucro econômico, e continua expondo suas mazelas. Quem tentar fazê-lo sempre acabará pagando o pato, pura e simplesmente. Por isso, seria esperar demais que algo diferente acontecesse com um governo (e um partido) em franca decadência, e com a justa desconfiança de boa parte da população.
Esta lição puxa outra (antes que cometa o mesmo erro de alguns): não se pode subverter as conclusões depois do voto derramado. A democracia funciona assim, apesar dos abutres. É verdade que as conclusões também não são tão simples como querem alguns outros, mas traduzir ao gosto próprio ou obscurecer o resultado é fazer pirraça. Da mesma forma, achar respostas no elitismo exibido pelos que sempre abominaram a vontade popular é talvez a saída menos digna de um evento confuso, desastrado e marcado pela indignação geral. Porém, também não se pode fazer coro com os derrotistas de sempre que, apesar de ganharem no voto, continuam não gostando de nada e de ninguém.
Se outra coisa ficou clara, é que os blogs em português ainda tem muito chão pela frente antes de virarem exemplos de discussão saudável. Salvo as exceções de sempre (e algumas novidades), a minha impressão é de que cada um monta o castelo de argumentos que mais lhe convém. E ai de quem reclamar do construtor. Eu também montei minha modesta casinha, admito. Mas prefiro desmontá-la e começar do zero a ficar sentado num pedestal invisível. De preferência usando tijolos variados e não os de uma cor só, como querem os extremistas que sendo tão diferentes acabam sempre iguais.
Por fim, apesar do desmonte, não acho que isso deva acontecer por cima de qualquer princípio ou convicção fundamental. Essas coisas é preciso defender com unhas e dentes, para não cair no velho papo das hienas que estão sempre a reclamar: "Oh vida! Oh dia! Oh azar!". A mediocridade não tem convicção nenhuma e por isso nunca está errada, nunca ganha e nunca perde. Amén.
PS = A imagem é uma brincadeira da Revista Mad americana que encontrei por acaso num desses dias. Mesmo que tenha mais a ver com a experiência americana do que com a brasileira, a imagem do veado armado chama a atenção. O humor ainda salva, como bem colocou o Laerte nesta tira (via Psycho).