Domingo, Outubro 30, 2005

Cd do Período





Andrew Bird - First Song
Andrew Bird - Lull
Andrew Bird - Skin

André Pássaro é um desses artistas polivalentes que não consegue parar de misturar estilos tradicionais com uma linguagem mais moderna. Além de fazer parte do Squirrel Nut Zippers (uma banda dedicada ao estilo big band jazz), produzir sua própria mistura de cabaret com os sons de Nova Orleans, e aventurar-se pelo pop-rock virtuoso; este músico de Chicago produziu o último cd que senti vontade de comprar. Mais calmo e pensativo do que os trabalhos anteriores, Weather Systems poderia ser uma trilha sonora de um bom filme. Até porque seria difícil imaginar um filme ruim com estas faixas. Esse estilo continua presente, em parte, no novo cd "Mysterious Production Of Eggs", que também conta com as belas "A Nervous Tic Motion Of The Head To The Left" e "Fake Palindromes". Mas não tão sólido quanto em "Weather Systems", o seu melhor cd, na minha humilde opinião.

     Terça-feira, Outubro 25, 2005

Pra não dizer que não falei das armas





O referendo ensina, apesar dos pesares. Uma boa lição: um grupo (qualquer grupo) não pode fazer de conta que detém a autoridade moral sobre determinado assunto, como segurança ou desarmamento. O socialismo sempre tentou sequestrar o sentimento do trabalhador mais simples e falhou clamorosamente. O liberalismo achou melhor apoderar-se do individualismo, medindo-o puramente na base do lucro econômico, e continua expondo suas mazelas. Quem tentar fazê-lo sempre acabará pagando o pato, pura e simplesmente. Por isso, seria esperar demais que algo diferente acontecesse com um governo (e um partido) em franca decadência, e com a justa desconfiança de boa parte da população.

Esta lição puxa outra (antes que cometa o mesmo erro de alguns): não se pode subverter as conclusões depois do voto derramado. A democracia funciona assim, apesar dos abutres. É verdade que as conclusões também não são tão simples como querem alguns outros, mas traduzir ao gosto próprio ou obscurecer o resultado é fazer pirraça. Da mesma forma, achar respostas no elitismo exibido pelos que sempre abominaram a vontade popular é talvez a saída menos digna de um evento confuso, desastrado e marcado pela indignação geral. Porém, também não se pode fazer coro com os derrotistas de sempre que, apesar de ganharem no voto, continuam não gostando de nada e de ninguém.

Se outra coisa ficou clara, é que os blogs em português ainda tem muito chão pela frente antes de virarem exemplos de discussão saudável. Salvo as exceções de sempre (e algumas novidades), a minha impressão é de que cada um monta o castelo de argumentos que mais lhe convém. E ai de quem reclamar do construtor. Eu também montei minha modesta casinha, admito. Mas prefiro desmontá-la e começar do zero a ficar sentado num pedestal invisível. De preferência usando tijolos variados e não os de uma cor só, como querem os extremistas que sendo tão diferentes acabam sempre iguais.

Por fim, apesar do desmonte, não acho que isso deva acontecer por cima de qualquer princípio ou convicção fundamental. Essas coisas é preciso defender com unhas e dentes, para não cair no velho papo das hienas que estão sempre a reclamar: "Oh vida! Oh dia! Oh azar!". A mediocridade não tem convicção nenhuma e por isso nunca está errada, nunca ganha e nunca perde. Amén.

PS = A imagem é uma brincadeira da Revista Mad americana que encontrei por acaso num desses dias. Mesmo que tenha mais a ver com a experiência americana do que com a brasileira, a imagem do veado armado chama a atenção. O humor ainda salva, como bem colocou o Laerte nesta tira (via Psycho).

Seja Marginal





Porque a história não está do lado dos reaccionários.

     Quinta-feira, Outubro 20, 2005

Músicas do período




Giant Drag - this isn’t it
Giant Drag - cordial invitation
Giant Drag - blunt picket fence

Um bom sinal de envelhecimento (ou longevidade, tanto faz pra mim) é perceber que a nova safra musical já anda usando referências musicais que você viu nascer, crescer e morrer. Eu era ainda moleque quando o punk e, eventualmente, a new wave atingiram o auge. Por isso não fiquei "ofendido" quando novos estilos trouxeram de volta sintetizadores e algumas daquelas roupas terríveis que todo mundo achava "shock" em 1980-83. Da mesma forma, o hippie e o punk sempre foram fenômenos atemporais pra mim. Porém, quando comecei a ouvir Pixies e Nirvana nos trabalhos de algumas bandas-nenêm atuais, percebi que estou ocupando espaço nesse mundo há um bom tempo. Um ótimo exemplo disso é a banda Giant Drag, uma dupla de Los Angeles que passeia por uma interessante mistura de Breeders, Smashing Pumpkins e Mazzy Star. Alguém deveria dizer à cantora que fumar faz mal à saúde, se ela quiser chegar ao meu mesmo patamar existencial. Enfim, essa minha longevidade ainda me mata.




Dandy Warhols - all the money or the simple life honey
Brian Jonestown Massacre - never become emotionally attached to man, woman, beast or child
Brian Jonestown Massacre - god is my girlfriend

Mais um capítulo na guerra entre as bandas protagonistas do muito-adulado rockumentário Dig!. Os Dandy Warhols continuam firmes (mas talvez não tão fortes assim) na estrada do semi-sucesso alternativo/trendy, enquanto o reformado BJM conta somente com a perturbada mente de Anton Newcombe como representante da formação original (e líder eterno). O primeiro lançou um cd recheado de alusões sessentistas e músicas que prometem mas acabam desapontando um pouco. O segundo suou para distribuir um EP com algumas músicas do (suposto) novo trabalho que teve que ser atrasado várias vezes (sabe-se lá por quais problemas). For my money, o Brian Jonestown Massacre ainda continuam sendo a minha banda-loser favorita. Além de contar com a minha música favoritíssima dos últimos tempos ("Seer"), o EP ainda inclui as simples mas geniais faixas acima.




Concretes - Sugar
Serena Mareesh - selina’s melodie fountain
Serena Mareesh - her name is suicide
Serena Mareesh - blues like behive
The Warlocks - Come Save Us
The Warlocks - it’s just like surgery

O rock continua sendo salvo por um bando de branquelos escandinavos enfurnados em claustrofóbicas e esfumaçantes casas noturnas. Tudo bem longe dos mega-shows em estádios e das pop stars aborrescentes dos dias de hoje. O suecos do Concretes seguem pelo excelente caminho trilhado em cima de um pop refinado de ótima qualidade, com suaves toques de Velvet Underground (tipo "Sunday Morning"). Por outro lado, o cd de estréia dos noruegueses do Serena Mareesh é um bom disco feito de melodias rock com muito fuzz e distorção. Finalmente, só pra não dizer que não há nada de bom no lado yanquee, lá vem o Warlocks, uma banda de L.A. com uma sólida reputação underground, bebendo da mesma fonte que o BRMC: os míticos Jesus & The Mary Chain. Quem disse que o rock morreu? Tio Lou ficaria orgulhoso.

     Segunda-feira, Outubro 17, 2005

Comfort, Texas


         


Fotos de uma breve (e tímida) excursão até o Hill Country texano (região que fica ao oeste da cidade de San Antonio). Além de possuir uma paisagem um pouco mais interessante, a área inclui uma série de cidades pequenas, escondidas entre suaves morros cobertos de uma vegetação que insiste em crescer, apesar do ambiente escaldante de boa parte do ano.

Entre elas Comfort, um desses lugares que ainda conservam uma que outra estrutura antiga, à salvo da atual homogeneidade urbanística dos EUA. A cidadezinha não chega a ser tão interessante como Eze (na França) ou Alba (na Itália), já que não há muito a se fazer no local e Comfort é relativamente "jovem" dentro da medida européia de tempo passado. Mas isso seria uma injustiça com a história do lugar, que foi construído graças à famílias alemãs que imigraram no século 19, na esperança de viver numa comunidade onde estado e religião fossem separados. Além disso (como diz a placa) valorizavam a razão e o direito individual, baseado no respeito à vida e à natureza.

É verdade que não li muito mais sobre o assunto, mas as características do free thinkers germânicos-texanos não deixam de ser um contraste radical à certos movimentos atuais da política americana e mundial. Depois de adotarem uma posição em contra à escravidão e de apoiarem a União durante a Guerra Civil, foram perseguidos e massacrados em ocasiões diversas. Com uma população atual de pouco mais de 2.000 habitantes, o lugar parece até abandonado, naquela tarde de um quente sábado de verão. O único conforto foi ver minha filha dançando feliz ao som da viola elétrica, tocada por uma banda ao vivo numa lojinha exclusiva para big-city folks, como nós.

     Quarta-feira, Outubro 12, 2005

Miguelito de Mala Madre





Este post da Christiana Nóvoa me lembrou duas coisas: o fato que eu cresci com o portunhol dentro de casa e Los Tres Amigos, um quadrinho que era sucesso na revista underground Chiclete com Banana.

O portunhol da minha casa sempre foi uma influência direta dos meus pais, e uma coisa totalmente natural para nós. E eu e minha irmã passamos até a incorporar palavras brasileiras dentro do nosso próprio espanhol. De tal forma, era comum ouvir frases como "Hacer eso és un saco!" ou "Yo acho medio esquisito ese negócio". Substituindo palavras entre um idioma e outro, criamos uma língua falada por apenas quatro pessoas, um verdadeiro fenômeno linguístico do qual muito me orgulho. Inclusive, bem diferente do portunhol usado por ambos os lados da fronteira Brasil-Argentina (se ilude quem acha que o portunhol é exclusividade cômica nossa).

A segunda lembrança vem diretamente do meioco dos anos 80. Pra quem conhece, a revista Chiclete com Banana dispensa apresentações (quem nao conhece, por favor informar-se sobre esse marco do quadrinho nacional). A colaboração de três grandes cartunistas daquela publicação (Angeli, Laerte e Glauco) originou "Los Tres Amigos", um dos mais escrachados usos do portunhol e dos estereótipos latino-americanos. Este site-homenagem merece uma visita. Mas cuidado que o conteudo não é aconselhavel para corações muito politicamente corretos. Recomiendo mutcho a tueda la rrente!

     Domingo, Outubro 09, 2005

Amo Meu Chumbinho





A sábia frente liberal sempre foi clara nesse aspecto: ai de quem tirar o nosso sagrado direito de fazermos o papel de completos idiotas. Muitos conservadores também: cuidado com o baseado! Mas se Joãozinho meter uma bala no Cesinho o governo que não se meta! (Foi sem querer querendo). E a sagacidade vai se amontoando: banir as armas legais não vai ajudar a acabar com as ilegais. Esse referendo não vai alterar a situação da segurança. Os bandidos vão se assanhar pra cima dos indefesos habitantes. Shhh! A polícia prefere as donas-de-casa armadas. Então chega de hipocrisia! Vamos deixar tudo como está! Pra que resolver o que não está quebrado?

Por favor, deixem as coitadinhas armas legais pra lá. Como será que cariocas e paulistas vão fazer pra caçar jabutis (essa praga urbana) sem suas espingardas? Se os comunistas meterem a mão no seu Magnum, logo logo proibirão facas, garfos e canivetes. Você quer realmente ter que conviver com talheres de plástico?!? Pense nisso, companheiro de chumbinho!

O verdadeiro problema é que as nossas mulheres nativas não aprenderam (ainda) a se defender da violência doméstica com a mesma moeda. Compre a sua metralhadora hoje! Chumbo grosso nesses machos brasileiros incompetentes!!! As americanas sabem disso, e nunca foram tão felizes! Claramente, também estamos atacando o problema dos pit-boys de forma equivocada. Qual vai ser o pescoçudo que vai se atrever a bater em alguém se todos os cidadãos usarem o seu direito de portar um treisoitão pras baladas? Bem, eles também podem se armar facilmente se as armas continuarem legalizadas, mas isso é só um detalhe. Bobo é quem não se arma. Mexer com a minha mina? Sai pra lá, mané, se não quiser levar tiro de fuzil nos cornos! Alias, quem vai ser o valentão que vai mexer com estas gurias?!? Será o fim dos estupros! Todo mundo sabe que os bares das favelas são os mais pacíficos do mundo. Álcool + armas + hormônios = a formula perfeita da paz!

O lance é que mente de subdesenvolvido é dose. Obviamente, devemos copiar o modelo americano, já que este funciona, tão bem. Ou quem sabe o canadense. Ou talvez o britânic...ooops, nevermind. Enfim, eu acho que é chegada a hora de acabar com o monopólio das balas perdidas pelos bandidos das áreas mais pobres. Sabendo que existem ladrões, sequestradores e traficantes de todos os tipos se escondendo por ali, é dever de todo cidadão conscientizado do seu santo direito a dar uns tirinhos naquela direção de tanto em tanto. Paz é coisa de babaquinha politicamente correto. Afinal de contas o faroeste caboclo é um barato. Vamos democratizá-lo! Já que não devemos olhar para essas ínfimas estatísticas sobre acidentes envolvendo crianças e adultos, porque preocuparnos com algumas mortes inocentes a mais? Estaremos limpando a cidade dos criminosos: dente-por-dente.

No referendo sobre a bala nossa de cada dia, diga para a sociedade deixar de ser egoísta e defenda o seu direito a brincar de Dirty Harry. Cano grosso neles!!!

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Pausa na chacota (que muitas vezes parece ser a única coisa que importa na blogosfera). Sem dúvida, porte de armas é uma coisa séria. Que poderia ser tratado como tal se o Brasil fosse um país um pouco mais sério. Infelizmente, não conseguimos nem controlar as madames que levam os seus cachorros pra cagar na praia, apesar de proibido. Seria bacana se cada um pudesse ter a sua arma em casa e, se algo der errado, que assuma a responsabilidade. Infelizmente, responsabilidade também não é o nosso forte. Apesar de ter que aturar esta lista sem fim de chatos globais e manos sangue-bom falando de violência, os argumentos contra a proibição da venda de armas não são suficientes pra me convencer de que uma população armada seja bom pra saúde. Sua arma é de colecionador? Bote num museu. Quer ir caçar urso polar? Mude-se pro Alaska. Quer se defender melhor do bandido? Cobre uma polícia mais decente.

     Quinta-feira, Outubro 06, 2005

My Local Butt





Uma das coisas que chamam a atenção no Texas são as lojas tipicamente locais. Num país (e mundo) cada vez mais massificado e corporativo, infelizmente essa é, muitas vezes, a primeira coisa em que reparamos em cada novo lugar. Por exemplo, o Lone Star State possui uma cadeia de supermercados que praticamente monopoliza o estado: o H.E.B. (ou eitchi-í-bi). A abreviação vem do empresário Howard E. Butt, cujo sobrenome deve ter lhe dado dores de cabeça constantes nos recreios da vida. Ele tomou conta do negócio da família em 1919 e o fez decolar. E o domínio continua, apesar da tentativa de invasão por cadeias maiores como Safeway, Trader's Joe e SuperTarget (a única que ainda consegue uma ponta do mercado local); isso graças (em parte) ao orgulho texano. Orgulho, por sinal, que é evidente nos seus habitantes e no cotidiano da região. A bandeira do estado, inclusive, merece quase tanto destaque quanto a americana por estas bandas (o que não se vê com a mesma intensidade em outros lugares).

Igualmente, o McDonald's não domina tanto o cenário do junk food, que causa estragos significativos na saúde e no bolso yanquee. Não porque não exista fast food por aqui. É que até nesse aspecto o residente local prefere as gordurebas locais, distribuídas através de pseudo-McDonald's como o singelo (e igualmente colesteroso) What-a-Burger. Mas a verdade é que o texano médio parece preferir um churrasco mais autêntico, além do tex-mex e a cozinha mexicana, que é mais variada e saudável (em geral) do que boa parte do menu americano. É praticamente impossível dirigir por San Antonio e não deparar-se com algum restaurante que não lembre uma cozinha mais latina (Las Palapas, Taco Tote, Pappasitos, La Fogata, etc...). O que não chega a surpreender, tendo em vista que o Texas recentemente entrou pra lista de estados cuja população não é composta por uma maioria branca (ou majority-minority state, como se diz por aqui). Com a onda hispânica/latina, os sabores locais também acabam mudando naturalmente. Bem, e se nada disso funcionar, há ainda a possibilidade de matar a saudade numa sucursal da churrascaria brasileira mais popular do sul dos EUA.