Domingo, Abril 29, 2007

A Mosca Na Rima (ou O Pouso Do Ponto Final)





Eu leio poesia, mas só no banheiro. Acho que tem mais a ver com a minha completa falta de tempo. Você pega um livro, dá uma folheada e encontra algo pra passar alguns minutinhos de sossego. Por isso não leio poemas muito longos. Admito minha burrice literária, que combato com um pouco de Bukowski, Neruda e Rilke, entre outros amigos de privada. Mas também não vejo poesia como decoração, não. Tem que ser funcional. Esse foi justamente o azar da mosca. Veio me atanazar, achando que não ousaria comprometer a minha novíssima cópia de W.H. Auden e seus melhores poemas. Deu mole. Passou desta pra uma melhor, bem debaixo de uma excelentíssima estrofe do senhor Auden ("O glaciar bate no armário/o deserto suspira na cama/e a fenda na xícara abre/uma travessa para o mundo dos mortos"). Pelo menos morreu uma digníssima morte literária na página 67.

     Domingo, Março 11, 2007

Presidente Lulu (ou Cadê o Ponto-G?)

E eu que achava que o Tony Blair era o poodle de Bush. Abro a página do Washington Post de hoje e me encontro com esta deleitável notícia: "On the Plane: Bush and Brazil's Lulu Face Reporters". Pra quem não acredita, aí vai o screen:




     Domingo, Fevereiro 11, 2007

I Want My MTV I

Tem uma hora que você tem que dar o braço a torcer. Por muito tempo eu passei a oportunidade de me chafurdar no YouTube. Indianos nanicos e pegadinhas histriónicas não eram o suficiente para me seduzir. Até que bateu a porta essa maldita besta peluda, o saudosismo barato. Noite passada destas, queimei minhas já cansadas pestanas à procura daqueles vídeos que minha memória insiste em guardar (às custas de informações mais úteis). Encontrei muita coisa (com baixa qualidade de imagem) só pra descobrir que o serviço anda às patadas com vários gigantes corporativos. Pode ser que esta série esteja finada antes de começar, mas vou ter que colocar alguma que outra besteira por aqui, enquanto encontro tempo pra falar sobre temas de mais peso.

"Pumping on your stereo" é uma das melhores músicas dos ingleses do Supergrass. O vídeo ficou bacana e será atípico do que eu provavelmente colocarei neste formato no futuro: mais recente, bem feito, interessante e cool. Daqui pra frente, só velharias e outros artefatos da época em que exibir vídeo era exclusividade do Fantástico.


     Domingo, Fevereiro 04, 2007

Ilhas I



Depois da minha passagem pelo Havaí (ainda tenho mais pra falar sobre isso, só falta tempo) fiquei completamente fascinado pela região. Caí de cabeça neste muito bem escrito livro sobre a história havaiana, desde James Cook até os anos 60/70. Entre muitos detalhes, fica a imagem de destituição histórica dos locais, na formação de um dos povos mais miscigenados do pacífico. No caso dos havaianos sua decadência ocorreu através de epidemias contínuas, ao contrário da dizimação sumária de vários outros povos que entraram em contato repentino com os ocidentais.

O livro de Daws é acadêmico sem ser chato, com várias passagens interessantes sobre a corte real havaiana e seu completo despreparo em lidar com brancos. O crescimento dos barões do açucar, a influência estrangeira e o isolamento geográfico acabam culminando com a anexação americana e eventual elevação ao título de 50o. estado da união. Entre uma ponta e outra, se arrastam vários personagens peculiares escritos através de uma prosa interessante. Nenhum mais interessante ao meu ver do que James Cook (seguido de muito perto pelo rei Kamehameha). Por isso mesmo acabei comprando o mastodóntico volume com as aventuras (reais) do capitão que viria a descobrir, explorar e morrer nas ilhas (ironicamente, pelas mãos dos locais). Espero continuar minhas próprias descobertas sem cair nesse perrengue.

     Terça-feira, Janeiro 09, 2007

Meme de Início de Ano (Ou Depois Disseram Que Eu Ia Demorar Cinco Meses)


Fui intimado por uma das Fridas a completar esta lista (update: e pelo Biajoni também. Pô, eu só conheço gente bacana!). Como eu ando furando com todo mundo, achei por bem responder (senão é capaz dela chamar a outra Frida e vir bater nimim). Como eu sei que ainda estou devendo outros convites (lembro da lista de músicas bregas, por exemplo), faço questão de responder este. Vou conclamar todos os que lerem isto e tiverem vontade a fazer igual, que é o meu modus operandi com estes memes.


1. Qual o primeiro CD que você lembra de ter comprado na vida? E o último?

    

O primeiro CD que comprei na vida foi este pirata do Pink Floyd, em Madrid no início de 1991 (nada menos do que no Corte Inglés, uma linha de mega-shopping centers espanhóis). Era na época em que a União Europeia ainda não tinha consolidado as leis de proteção ao copyright, e países como Espanha, França e Itália permitiam a venda de todo tipo de gravações pirata em estabelecimentos legítimos. De tal forma, era moleza encontrar clássicos ao vivo e raridades de gente como Deep Purple, Led Zeppelin e Pink Floyd, produzidos de maneira, digamos, "caseira". A qualidade nem sempre era das melhores, mas dei sorte com este. Com várias gravações "ao vivo" de apresentações em rádio e tv, contêm "Point me at the sky", uma faixa que nunca saiu em nenhum disco oficial. Certamente, comecei com o pé direito. O último cd que comprei foi "Fox Confessor Brings The Flood" de Neko Case, como presente de natal para minha mãe.


2. Existe algum artista do qual você tenha a coleção completa de tudo o que ele tenha lançado?

Pink Floyd, The Doors, Velvet Underground, Violeta de Outono, Jane's Addiction, Stooges, Pixies, Holly Golightly e The Shins.


3. Existe algum disco, CD ou LP que você gostaria muito de ter e até hoje não conseguiu comprar?

Tinha inúmeros discos nessa situação até que a internet apareceu. Graças à ela, por exemplo, consegui encontrar parte do "Trash Land" nesta coletânea das Mercenárias (de quem buscava particularmente a música "Somos Milhões"). Há algumas músicas avulsas que ainda me faltam caçar, mas não posso dizer que exista algum disco inteiro que não tenha encontrado de uma forma ou outra a partir de então.


4. Qual sua lembrança mais interessante de uma música em particular?

    

Duas lembranças que me vem à mente. A primeira se refere ao disco "Memories" de Richard e Mimi Fariña. Mimi é irmã de Joan Baez, e Richard era uma promessa do cenário folk dos anos 60. Não fosse a morte prematura de Richard em 1966, talvez eles teriam sido tão famosos/importantes quanto Bob Dylan e companhia. Este disco é um clássico dessa carreira interrompida, e não o teria escutado se não fosse o puro acaso. Numa tarde friolenta em Londres, decidi comprar um disco dos hippies Country Joe and The Fish. Ao chegar em casa, comecei a perceber que a música não batia com o disco que eu achava ter comprado. Graças ao que só pode ter sido um erro crasso de produção, o CD de Richard e Mimi saiu impresso como se fosse do Country Joe. Acabei gostando muito do disco "errado" e, por ter prestado bem atenção nas letras, eventualmente descobri sua verdadeira autoria. Troquei o CD defeituoso e hoje tenho os dois discos, dos quais prefiro mais o da dupla Fariña.

A segunda se refere a uma música mais recente com história semi-interessante: "Gris-Gris Gumbo Ya Ya". O intérprete é Dr. John, um excêntrico experimentalista americano que produziu vários discos com o sabor de sua cidade natal, Nova Orleans. Mas eu não tinha a menor idéia de quem fosse, quando essa música começou a tocar na estação de rádio KTUH, enquanto voltava de carro de um passeio pelo North Shore de Oahu, nas ilhas havaianas. A noite estava adocicada pelas plantações de cana de açucar na beirada da auto-estrada H1 (ligando o Norte ao Sul da ilha) quando ouvi o swingado ritmo da música-voodoo e o jeito desleixado de cantar de Dr. John. Talvez a magia do North Shore tenha me deixado mais suscetível a todo tipo de sonoridade, e decidi que tinha que descobrir qual era aquela música. Infelizmente, o carro do rádio começou a perder o sinal quando cheguei lá pelo meio do caminho (mais tarde descobri que essa estação toca em diferentes frequências em cada lado da ilha). Não me dei por vencido: mandei um e-mail para o endereço da KTUH, descrevendo a música e a hora em que a escutei. E eles responderam (rádio independente é outra coisa)! Agora, guardo a lembrança especial daqueles dias nessa faixa.


5. Alguma música mudou efetivamente sua vida?



Uma música dos Ramones. Qualquer uma. Até porque todas as músicas dos Ramones poderiam estar resumidas em uma só. O estilo do grupo nunca mudou durante os anos, nem seu apelo como fundadores do movimento punk. São vários os grupos que moldaram o meu jeito de ser durante minha atabalhoada adolescência. Ou mais especificamente, que me deram a sensação de que não era um indivíduo desengonçado e sem graça, como às vezes nós mesmos nos fazemos passar por. É difícil explicar direito o que significaram pra mim bandas como Pink Floyd, The Doors, Led Zeppelin, Pixies e Velvet Underground naqueles anos. É talvez por isso que os Ramones sejam perfeitos nesse quesito: sua música, suas letras, seu estilo e sua filosofia eram o próprio símbolo dessa mensagem (como mostra este excelente documentário). Eu não seria o mesmo sem muitas coisas que me aconteceram antes e depois. Mas os Ramones são um componente musical essencial dessa viagem. E se for pra escolher uma, então, vá lá: "Teenage Lobotomy".

     Segunda-feira, Janeiro 01, 2007

Bobagens de 2006 (Ou Mamãe Eu Estou na Capa da Time)





Ainda não sei se 2006 foi um ano mais besta do que os outros. Isso a gente só descobre lá pelo meioco do ano seguinte. Ou então quando minha cabeça parar de ser bombardeada com listas de 'os melhores do ano' na tv, revistas e jornais (isso me lembra: tenho que fazer minha lista de melhores músicas do ano!). Uma coisa é certa: deu preguiça na redação da revista Time na hora de escolher o Homem ou Mulher do Ano. Tanta gente bamba por aí e eles foram escolher logo eu. Quero dizer, vocês. Quero dizer, nós. Eu esperava mais de uma revista que já escolheu Hitler como o tchan-tchan-tchan de 1938. Enfim, talvez seja um sinal dos fins dos tempos que o pessoal da Time tenha lido meu blog e gostado tanto assim. Ou talvez seja falta de assunto mesmo. Aliás, quanto é que a Veja vai demorar para fazer algo igual ou mais idiota?!?


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Vou entrar em penitência líquido-glucosa. Prometi que não vou tomar refrigerante este ano. Não sei se terá algum benefício, apenas achei uma coisa legal de dizer antes do ano ter começado. Como desgraça pouca é pequena, convenci minha mulher a fazer essa loucura junto comigo. Sabe qual é, entrei naquele papo de que é ruim pra saúde, pros dentes, pro bolso e blá-blá-blá. É certamente uma missão quase impossível: entre refills e lunch menus, evitar soda aqui nos EUA é como se esconder do sol ao meio-dia. Certamente alguém me pegará entornando uma lata de Coca escondido no banheiro durante 2007.


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Nessa incerteza de fim/começo de ano, ainda não sei bem o que sentir sobre o último ritual de enforcamento dos nossos ditadores favoritos. Na tv, as imagens sempre vêm acompanhadas do típico pronunciamento "esse matou mil e não sei quantos, roubou milhões, semeou miséria e guerra...". Talvez seja pra nos fazer esquecer que as imagens são de um velho patético caíndo com uma forca no pescoço. Talvez será bom, talvez será ruim, talvez nada mudará. A única moral: cuidado com as amizades.


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Uma história (lida em jornal, supostamente verdadeira) que ficou grudada na minha cabeça durante 2006: um especialista em interrogações da CIA estava num quarto sozinho com um terrorista da Al Qaeda, em um centro de detenções em local desconhecido. O preso tinha passado um longo período de treinamento e sabia de cor o que ensinava o manual de terrorista sobre como se comportar nessa situação. O agente da CIA também tinha lido o manual e igualmente tinha memorizado todas as instruções. Assim que o preso colocava em ação uma tática diversionista, o agente citava a página e o número dela nesse manual. O preso tentava outra tática, e o agente imediatamente anunciava outra página correspondente. Eventualmente, o preso deixa cair a máscara de fundamentalista decidido e sorri. O agente sorri de volta.

Não sei se esta história tem moral. Nem sei bem porquê ficou na minha mente. Talvez eu goste de imaginar que ambos tenham reconhecido (nem que por um breve momento) o ridículo da brincadeira.


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Feliz, feliz, ..., o quê mesmo?

     Sábado, Dezembro 23, 2006

Hoje Não É Dia De Reclamar De Boca Cheia (Ou Boas Festas)





Cada dia que passava, eu acreditava cada vez menos no Papai Noel. Até que, de repente, percebi que tinha virado o bom velhinho. Hoje eu acredito cada vez mais nele. Abraços.

     Domingo, Dezembro 17, 2006

Revolução Farroupilha





"...unos brasileños que engarzaron las piezas con soberbia maestría..."
El Mundo, 17 Dezembro 2006


Eu admito que nem gosto tanto de futebol. Não assisto, não comento e quase não sinto falta. Mas isso nada limita dois fatos importantes: sou gaúcho de nascença e espírito; e torço sempre pro azarão. Principalmente se for um dos meus times de coração (o outro foi campeão mundial em 1981). Tchê!

     Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

O Mapa Da Mina



      

      

Eu gosto de perder o tempo com bobagem. Em boa parte, é uma das razões pelas quais não ando postando tanto. Eu sento na frente do olho eletrônico e entro no mundo del dolce farniente. Enfim, eu poderia estar escrevendo sobre mil e outras coisas mas no momento ando passeando pelo Google Maps.

Já está manjado, é verdade, mas as distrações (ou deveria dizer vícios?) são muitas. Desde lugares onde nunca estive até aqueles que conheço de sempre, tudo parece mais interessante de longe. Tem o cultivo de campos na California, essa água com cor esquisita na costa do Suriname e estas formações geométricas lusitanas como exemplos geo-macro-artísticos da melhor qualidade. Sem contar com o laberinto da plantação Dole em Oahu (pra voltar ao assunto) e esta beleza de praia aconchegante portuguesa.

Aliás, praia foi a razão pela qual comecei minha carreira cartográfica-amadora. Depois de visitar o Havaí (devidamente revistado no Google Maps), passei a me intrometer em outras costas à procura de praias que, por ventura, exibissem ondas surfáveis no momento do click satelital. De tal forma, pincei esta morra californiana quebrando, altas esquerdas no Peru, direitas isoladas no Saara Ocidental e supertubos em Bali.

Existem milhares de sites dedicados às curiosidades do GM, como por exemplo este, mas de uma certa forma a coisa não tem graça se não for você mesmo a encontrá-la. Inclusive, o Yahoo também passou a proporcionar um serviço parecido, e até um pouco melhor em certos quesitos. Com tanta besteira interessante na internet, eu tenho que parcelar o meu tempo até quando quero jogá-lo fora.


      

   

     Domingo, Novembro 26, 2006

Hawai'i II (Ou O Soluço de Pele)






Como eu disse no post anterior, a deusa havaiana do fogo, dos vulcões e da violência, acordou indisposta no dia 15 de Outubro de 2006. Eu já estava acordado naquele exato momento pouco depois das 7 da matina, graças ao considerável fuso horário com o Texas.

No início, apenas as janelas começaram a tremer, dando a impressão de uma rajada de vento mais forte (era um dia chuvoso em Oahu). Mas a tremedeira virou um estrondo cada vez mais intenso, fazendo com que mesa, a tv e todo o resto do quarto balançassem juntos. Obviamente, não era o vento. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi correr pra fora do quarto. A segunda foi se este for um 'big one', não vai adiantar nada: eu estava no nono andar de um hotel no canto sudoeste de Oahu.

A parte mais impressionante não foi nem o tremelejo dos objetos ao meu redor, mas sim a sensação da espinha dorsal daquele prédio enorme virar gelatina. O andar inteiro amolecendo e deslizando vários centímetros como se estivesse sobre patins. Fiquei com os pés grudados no chão esperando o meu quarto decidir se ia me jogar pra fora do prédio ou não, enquanto todas as luzes se apagavam. Assim que a terra parou de balançar, 15 segundos depois, achei por bem dar uma espiada no corredor do hotel.

Seria melhor que não o tivesse feito. No escuro, outros hóspedes marchavam pra fora dos seus quartos, muitos nem ainda completamente vestidos, agarrando-se aos filhos e entes queridos. Foi o único momento em que senti uma ponta de pânico: seria essa a hora de sair correndo? Seria melhor pegar o carro e sair dirigindo estrada afora? E se o Havaí inteiro estivesse de pernas pro ar, pronto pra cair no caos total? Mas, dirigir pra onde, já que estava numa ilha? Considerando que o hotel ainda estava em pé, me acalmei e fui ver a situação lá embaixo. No lobby, os funcionários lidavam com os mais alarmados, e indicavam que a luz não tinha hora pra voltar fora do primeiro andar (à base de gerador), e que o problema era o mesmo em toda a ilha.

Uma rádio improvisada pelo hotel contou durante aquela manhã os detalhes do sismo de 6.7 pontos na escala Richter, originário na costa da Ilha Grande (e não muito longe da moradia de Pele, o vulcão Kilauea). Provavelmente um resultado do acumulo de atividade volcânica durante as últimas décadas, senão um simples ajuste do peso do arquipélago sobre o manto que a sustenta (e no qual eventualmente afundará de volta).

Pessoalmente, o maior problema foi apenas a falta de luz. Eu estava num hotel em Oahu, me vendo forçado a ficar rodando pela praia local enquanto o resto da ilha tentava descobrir como devolver o fornecimento de eletricidade (o que demorou 8 horas no meu caso, e muito mais em outras regiões). Do que iria reclamar? Muitos turistas perderam o vôo de saída nos dias seguintes. Eu, por razões puramente egoístas, torcia pra perder o meu também. Mas acabei deixando a ilha depois de várias experiências inesquecíveis, includindo um terremoto e um apagão generalizado.

PS1 = Guardo o jornal local daquele dia, o Star Bulletin, cuja capa pretendo colocar num marco e pendurar eventualmente.

PS2 = O apagão, muito mais do que a preparação para o terremoto, gerou indignação total na população do Havaí. Principalmente em Oahu, onde as autoridades se perguntaram como iriam evacuar as ilhas no caso de uma emergência mais grave. O terremoto é fichinha perto do risco de furacões, explosões volcânicas e tsunamis.

PS3 = Durante o resto do dia, o mar em frente ao hotel alternou manchas de diversas cores. Incluindo aí o marrom da terra desprendida de várias partes da ilha; como uma marca de sangue depois de uma violenta briga.

PS4 = O evento em si não efetou em nada minha percepção sobre a beleza espetacular de Oahu. Ao contrário, me fez ainda mais vívida a memória daqueles dias pré e pós- balanço. Ironicamente, perdi meus óculos em Sunset Beach por distração. Mas tenho também a impressão que deixei uma parte da minha alma por lá, nessa curta passagem.

     Sábado, Novembro 18, 2006

Hawai'i (Ou Meus Dias No Paraí'so)






Estive sumido, é vero. Mas foi por boas razões: em Outubro passado consegui a proeza de ir à um lugar que me parecia inatingível à esta altura da vida. Uma ilha tão familiar quanto à minha própria mão, apesar de ser a primeira vez que ponho os pés nela. Crescendo nas ondas do Rio, o Norh Shore de Oahu era a minha Mecca surfística. Quando vi a placa indicando a cidade de Halei'wa (o centro surfístico da região) quase comecei a chorar (do mesmo jeito que o personagem de Chevy Chase ao chegar em Wally World, no filme Férias Frustradas). O único defeito foi ter ido à trabalho, mas ainda assim melhor do que não ter ido. Foi memorável de qualquer maneira, já que também experimentei um terremoto em primeira pessoa. No retorno, meu encontro com Pele (a deusa havaiana do fogo; não o jogador de futebol).

     Domingo, Setembro 10, 2006

Um Domingão Daqueles



Faz um tempo atrás (eu uso muito este termo ultimamente), Denise colocou um desafio mortal no Síndrome: montar um painel de fotos tão bacanas quanto as dela. Eu comecei o meu, parei, re-comecei, re-parei; e só agora consegui completar (defasado, como quase tudo o que faço). Enfim, está aí o meu domingão de duas semanas atrás: excitante e digestivo!





De cima-baixo, esquerda-direita:

1. Um pequeno passeio pela vizinhança logo de manhã cedo. A patroa de casa (minha filha) gosta de acordar às 6 da matina em ponto. E ai se o leite quentinho não estiver esperando por ela! Enfim, você sabe que está ficando velho quando sai por aí e fica tirando foto de florzinha na casa dos outros.

2. Saída para passeio longo, atravessando as pedreiras texanas. Nada cresce aqui neste pedaço de mundo que precise de muita água. A foto engana, quase nunca está nublado e nunca chove por estas bandas. Um dia raro, portanto.

3. Pra mostrar como sou intelectual: eu não leio livros, eu leio pilhas de livros. Neste dia passei primeiro numa livraria (não-virtual), pra complementar minha pilha com esse tal do Carlos Sagano que a Denise recomendou, uma história oral de uma banda que ninguém escuta mais e um romance sobre um nerd. Eles vem a se juntar à uma espiadela nos casinos de Las Vegas, uma história ficcionada da derrota no Alamo, um tomo que renega certos misticismos católicos, o eterno livro de Italo Calvino que nunca acabarei de ler e outras literaturas não-essenciais.

4. Meu edifício favorito aqui em San Antonio. Não me perguntem nada sobre ele, não sei necas sobre o porquê ou quem fez. Só sei que ele tem um monte de janelas irregulares do outro lado. A cidade não tem uma arquitetura suprema, mas é agradável aos olhos (quem quer construir algo com este calor todo?).

5. Uma passadela no Pico de Gallo, um dos meus restaurantes mexicanos favoritos aqui na cidade. A primeira coisa que tem que se aprender sobre a comida mexicana aqui nos states é que ela não tem nada de mais. Depois desse ajuste, é possível apreciar um que outro prato e aproveitar o ambiente e a decoração típica.

6. Por falar em decoração, esta é a do Pico. Gawdy, kitsch e retrô. Depois de umas 5 ou 6 margaritas, esta Madonna começa a me contar coisas estranhas, às quais eu prometo sigilo absoluto (até porque o pileque sempre me faz esquecer de tudo).

7. Depois de muita salsa na cabeça, tiro um cochilo enquanto assisto More, o meu filme pourra-lôka predileto. Já assisti umas 20 vezes, e cada vez está melhor. Underground, riponga e anti-drogas ao mesmo tempo. Durante um longo período ele foi apenas uma película sonhada, que eu imaginava ao som da trilha sonora famosa. Assim que o consegui alguns anos atrás, delirei (sem tomar nadinha!).

8. Pra acabar com o resto do domingão, nada melhor do que umas Shiner de saideira. Os insetos, o calor e os políticos são um saco, mas sentirei saudades da Shiner se um dia partir do Texas. Não preciso falar mais.

9. O sofá onde dormi naquela noite. Com tanta cerveja em cima, acabei seguindo o conselho da Vanessa e fui ver as fotos da Carol Correa na wébi. Não tinha aquela música safada "Chora Bananeira"? Pois é, a minha termina "...e minha mulher me pegou vendo mulher pelada na internet/e fui dormir de castigo na sala."

     Segunda-feira, Setembro 04, 2006

Feliz Níver, Blog!



Já se vão 5 anos desde o primeiro post. Tudo começou com uma pequena matéria do Jornal do Brasil sobre um defunto que levantou da cova e foi ao hospital (era puro cut-and-paste no início). Seguido de uma explicação besta, mas singela. Como ultimamente ele anda meio enfezado comigo, ameaçando bagunçar o template e trocar o password sem me avisar, resolvi fazer uma homenagem à ele (que lê e atura todas as minhas bobagens sem pestanejar) e escolher cinco posts favoritos que nele residem. O critério é frouxo e a bancada conta com apenas um crítico de pouco discernimento intelectual: eu. Mesmo assim, está aqui minha lista de postagens memoriosas com direito à link e resumo. Feliz Bloguiversário!

Up-e-deite: Depois de uma revisão e alguns comentários, tenho que me fazer justiça (mesmo que à tardinha) e colocar alguns mais. Não porque esteja me achando o bom, mas porque já vão mais de mil posts neste site e a porcentagem de razoáveis ainda está fraquinha. Subi o meu aluguel de 5 pra 7.


7. Como Irritar Profundamente O Seu Vizinho

Foi quando percebi que, além de um confessionário das besteirinhas nossas de cada dia, blog também poderia ser um serviço de utilidade pública. Esta receita é melhor do que despacho. A história é verídica, real e aconteceu pra valer.

6. Menos Dois

Um textículo sardônico que saiu melhorzinho do que a maioria das coisas que escrevi, deletei e eliminei do recycle bin. Comigo é assim, ou sai de entrada ou não sai mais. Este saiu, com um pouquinho de força. Eu gostei e alguns dos meus amigos riram, o que me levou a crer que esse negócio de blog não era tão ruim assim. Eu voltaria a insistir no molhado com outro post, que não merece uma posição aqui.

5. Me Engana Que Eu Gosto

Um ensaio sobre a prestidigitação intelectual no mass media americano. O bacana dos blogues é a oportunidade de se ler coisas diferentes, fora do lenga-lenga de sempre. Como eu sou bom de lenga-lenga, não sei se contribuí muito mas, talvez, esta tenha sido a minha melhor tentativa. Ou então continuaremos sendo todos bons e todos maus ao mesmo tempo.

4. Cadeia Nacional

Se cada blogueiro/a for sempre se colocar como inteligentíssimo/a, antenadíssimo/a e culturalíssimo/a, a coisa não tem graça. Eu também gosto de porcaria. Mas porcaria de vanguarda. Porque não só de Leminskis vive o Paraná, tem também muitos outros malucos engraçados que nasceram lá. Apesar de que no caso Alborghetti, eu não tenho certeza que essa é a intenção original dele (ser engraçado). É trash? É. É escatológico? É. É meio doentio? É. Mas (como diria o meu amigo Hiro) eu gosto, pombas!

3. Levitate Me

Um post brejeiro sobre algo que parece ser mas não é. Ou que é mas não parece. E que também levita. Enfim, foi uma boa desculpa pra plagiar o título de uma música da banda Pixies.


2. Se Essa Banda Falasse

No meu caso, os posts interessantes começam através de coisas simples: um comentário escutado na rua, uma notícia bizarra lida num jornal, algo que alguém disse quando estava trêbado e caindo pelas tabelas... Enfim, este post começou com uma brincadeira entre blogueiros numa caixa de comentários e acabou criando pernas e vindo morar aqui, no andar 12.

1. Os Fantasmas Da Colombo

Eu não sei se está bem escrito mas, pessoalmente falando, esta é razão pela qual deveria manter um blogue: contar histórias e casos particulares e guardá-los, pra poder gargalhar mais tarde (ou, no mínimo, abrir um sorrisinho). Pode não ter comentários nem elogios, mas eu sempre vou lá ler este post quando me pergunto pra quiéquié mesmo que mantenho este blog. Se eu conseguir acumular mais uns 3 ou 4 textos como este nos próximos anos, estará valendo a pena derramar letras nele.

     Domingo, Agosto 27, 2006

Black Angels (ou God bless Texas)





Nem só de maus presidentes e muito calor vive este estado. Também existe um forte cenário musical em Austin, aqui perto. É verdade que a cidade vêm sofrendo uma invasão de "descolados de boutique" mas, vá lá, ninguém é perfeito. Os Anjos negros botam o pê fundo na nostalgia do rock barulhento e melódico ao mesmo tempo. De Velvet Underground à Jesus & The Mary Chain, com ecos de Clinic e Secret Machines aqui e acolá. Se o gênero for se limitar à essa ciranda de revivals, então que pelo menos o façam direito. Como o pessoal do BA no seu primeiro disco. Basta ouvir "Young Dead Man", "Black Grease" e "The Prodiga Sun". Deus abençoe esse Texas, indeed.

     Sábado, Agosto 26, 2006

25 Watts





Assistindo ao filme uruguaio 25 Watts, uma série de fatos se fazem evidentes:

- Para fazer um bom filme continua valendo a velha máxima de que não é estritamente necessário ter muito dinheiro, atores-estrelas nem uma produção de alto nível. Basta uma boa idéia e um bom script. Dane-se Hollywood.

- Os adolescentes uruguaios recebem uma forte influência brasileira. Um dos personagens do filme (que poderia passar por sósia do Guga tenista) comenta a importação de termos como "tudo bom" e "sacou" de Floripa.

- Os "atores" de 25 watts são amadores de verdade, por isso o filme funciona. O linguajar usado ("boludo", "pelotudo", "concha la lora", "gil", "reloco", "rebueno", "recontento"...) bate com o que eu escutei quando morava na Argentina (e isso que eu só tinha 7 anos na época). Por isso esta pequena pérola uruguaia consegue o que 99% dos filmes brasileiros nunca fez: ser autêntico.

- O único uruguaio no Livro Guinness de Records é um cara que bateu palmas sem parar durante 5 dias.

Apesar de que, ao crescer, gostamos de nos ver como indivíduos engajados, esclarecidos e "cabeças pensantes", as pequenas histórias de alienação adolescente de 25 Watts tem tudo a ver com o meu passado. Inclusive, alguns personagens me lembram pessoas reais que conheci no Rio de Janeiro. É uma lástima que este filme (junto com o interessante, mas não tão memorável Whisky) seja o fim da colaboração de dois jovens uruguaios que fizeram um surpreendente sucesso internacional na base de muita criatividade e vontade de filmar. Eu soube do suicídio de Juan Pablo Rebella ao ler esta matéria no jornal inglês The Guardian, quando ouvi falar da dupla pela primeira vez.